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sábado, 1 de dezembro de 2012

Os tempestuosos mitos de Thor


Atualmente, o personagem Thor tem ganhado espaço nos meios de massa como um herói. Os heróis, frequentemente, são figuras singulares que fazem parte do imaginário de diversas culturas. Quando falamos de heróis na atualidade, invariavelmente estamos nos referindo aos personagens que, de modo geral, são produzidos pelos meios de massa: quadrinhos, vídeo-games e filmes. Porém, neste texto, apresenta-se o aspecto mitológico de Thor, seguido de uma incursão por alguns de seus contos como uma forma de delinear seus contextos filosóficos. 

No passado, na Irlanda, um dos nomes dados aos Vikings era “O Povo de Thor”, devido à coragem e a força deste povo nos campos de batalha. Os Vikings habitavam a Escandinávia em época anterior ao surgimento cristianism, porém, não eram povos primitivos ou bárbaros como muitos acreditam; mesmo que algumas histórias desta gente tenham aspectos um tanto sombrios. Aquele povo não se diferencia em nada dos povos contemporâneos quanto à organização da sociedade. Cornélio Tácito, senador e historiador romano falecido em 120 d.C. revelou que os antigos povos nórdicos tinham uma forma de organização social compatível com aquela que era considerada civilizada. Segundo Michael Howard, pesquisador das raízes históricas dos Vikings, esta organização social era invejada até por alguns romanos. Os Vikings obtiveram sucesso na dominação de inúmeros lugares, como o norte e o sul da Inglaterra, o norte da França e outros. Isto também se deve à eficiente organização social que os Vikings possuíam. Podemos ver algumas semelhanças entre a organização social dos Vikings e a nossa civilização contemporânea ocidental; entretanto, os Vikings não tinham uma visão compartimentada do mundo tal como a nossa. Para eles a dimensão espiritual e a dimensão material da vida não estavam separadas; os mitos e a realidade estavam integrados em um modo orgânico.

O erudito islandês Snorri Sturluson, em sua obra The Golda publicada em 1220 d.C. também escreveu sobre estes povos da Europa setentrional. Sturluson retrata suas divindades como personagens semelhantes aos super-heróis atuais. Não sabemos a que atribuir o ponto de vista de Snorri Sturluson, tão diferente dos pontos de vista existentes em sua época. Um dos possíveis motivos seria que algumas divindades em sua origem podem ter sido homens de carne e osso, que teriam praticado feitos extraordinários em vida e divinizados após a morte. Como exemplo, podemos citar o Deus da poesia, Bragi, que originalmente teria sido um poeta do século IX, chamado Bragi Boddason. Alguns diziam que este poeta teria tido as runas (o alfabeto mágico e sagrado dos povos nórdicos) gravadas na sua língua pelo próprio Odin.
 
Existem diferentes histórias sobre a natureza divina de Odin; em uma história ele já nasce como um ser divino; em outra história, ele é um homem que se torna divino após sacrificar-se, pendurando-se de cabeça para baixo na árvore Yggdrasil com uma espada empalada em seu próprio peito. Um outro exemplo é o do deus Thor. Sobre este deus, há indícios que sugerem ter sido ele um corajoso herói de guerra, tendo se tornado uma figura importante nos contos mitológicos escandinavos. Na cultura nórdica, a mitologia e a vida parecem se misturar resultando em um novo valor para a vida das pessoas, para suas escolhas e para a manifestação dos seus talentos intrínsecos. Nesta cultura, os seres humanos podiam ser transformados em divindades, mas isto não significava um tipo de canonização, nem as pessoas buscavam obsessivamente gravar o seu nome na história. Ter sua própria imagem divinizada não era um projeto de vida em especial; isto acontecia como conseqüência de talentos pessoais demonstrados.

Para os povos da Europa setentrional na época pré-cristã, o estrondo das tempestades estava associado ao deus Thor viajando pelo céu numa carruagem puxada por duas cabras. O medo que os trovões provocava nas pessoas era atenuado pelos contos míticos que ajudavam a organizar e dar sentido ao seu mundo. Segundo o Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier, os povos celtas entendiam os raios como um desequilíbrio das ordens cósmicas, expressado na cólera dos elementos da natureza. Para os povos gauleses, os trovões traziam o medo de que o céu caísse sobre suas cabeças. Os raios e trovões eram muitas vezes entendidos como um tipo de castigo infligido pelos deuses. Neste sentido, os trovões evocavam a responsabilidade humana para aqueles povos. Thor era um deus que representava uma força da natureza, o trovão, mas que também combatia outras ameaçadoras forças da natureza, os gigantes, uma representação do frio daquela região gelada do globo. Podemos supor que Thor foi “criado” pelo povo nórdico como uma forma de proteger a idéia coletiva de sucumbir diante do temor das forças da natureza. Atualmente os humanos não mais vêem Thor, o deus dos raios e dos trovões, nas descargas elétricas das tempestades. Agora nossos “mitos” são científicos; confiamos unicamente no pensamento racional, como se este pudesse nos proteger das ameaças da natureza e até da própria psique humana. Achamo-nos diferentes dos povos do passado, porque desenvolvemos mecanismos mais “seguros” de explicar a natureza, porém acabamos nos afastando da nossa própria natureza. No entanto, mesmo com a tecnologia e ciência tão desenvolvidas atualmente, ainda vivemos sujeitos a diversos tipos de ameaças, sejam abstratas ou concretas. As crises financeiras, o aquecimento global e o medo da violência  são alguns exemplos do que nos apavora.

O surgimento de mitos acontece de modo lento, sinuoso e não-linear devido a uma necessidade dos seres humanos de histórias e imaginação. Também podemos pensar que os seres humanos criam narrativas mitológicas para lidar com o medo e o constante estresse psíquico e de algumas possíveis ameaças da vida cotidiana. Atualmente, muitas pessoas buscam se proteger das ameaças em geral criando enredos de cunho científico, o “novo deus” para os humanos é a ciência. As histórias mitológicas atualizadas nos meios de massa podem servir como uma alternativa aos excessos de racionalização? O excesso de racionalidade pode acabar nos roubando uma certa capacidade de imaginação subjetiva, criando um estado neurótico. Segundo o psicanalista suíço Carl Gustav Jung, a neurose acontece devido a um desenvolvimento unilateral do sujeito (ou da coletividade), em que ocorre uma rejeição de algumas instâncias psíquicas, com ênfase em outros aspectos. Podem os super-heróis modernos nos proteger de uma “neurose coletiva” que enfatiza demais a racionalidade? Seriam os super-heróis atuais “equivalentes” aos antigos deuses?

Na atualidade, muitas pessoas conhecem Thor somente através das histórias em quadrinhos da editora norte-americana Marvel; desconhecendo a origem arcaica deste deus aventureiro da mitologia nórdica. Originalmente, Thor era filho de Odin, o deus dos deuses, e de Iord, a terra. Também conhecido como Donnar, Donar ou Donner, nomes que o relacionam ao trovão, ele representa esta força da natureza. Thor possui uma voz estrondosa e penetrante; de seus olhos saem chispas de fogo. Ele é extremamente forte e comilão (podendo comer um animal de grande porte em uma única refeição). Thor, assim como os povos nórdicos, adorava disputas de poder e era o principal campeão dos deuses contra os inimigos destes, os gigantes do gelo. Sua marca principal é um martelo chamado Mjölnir, feito pelo anão ferreiro Sindri em sua caverna subterrânea. O martelo tinha um defeito, seu cabo era curto demais. Ainda assim, o artefato tinha inúmeras outras vantagens; por exemplo, ele voltava como um bumerangue para as suas mãos. Este martelo dava a Thor inúmeras habilidades de força e destreza e ainda o poder de dominar o trovão. Menos conhecido popularmente era seu cinturão mágico, Megingiord, que duplicava sua enorme força. Thor era casado com Sif, a deusa dos cabelos de ouro, também conhecida como a deusa do trigo e da colheita. Thor é uma divindade que constantemente se envolve em aventuras heróicas e seu papel principal é defender a morada dos deuses, o Asgard. Alguns contos originais o mostravam como uma enorme figura de barba ruiva, de comportamento ligeiramente estúpido. No entanto, alguns historiadores dizem que este deus não deveria ser visto assim. Eles explicam que a aparente estupidez de Thor era uma estratégia contida nas narrativas a fim de revelar no final, de modo inusitado e surpreendente, a sua força descomunal. O jeito tolo deste deus também faz parte dos aspectos cômicos que envolvem a maioria das sagas nórdicas, onde Thor contribui com suas características para os aspectos lúdicos e engraçados das histórias.

Durante sua infância, Thor foi impedido de viver com outros deuses no Asgard, por causa dos seus freqüentes acessos de ira, os quais perduraram até sua juventude. A grande força de Thor, combinada com seu temperamento tempestuoso, representava uma ameaça a todos. Por este motivo, Thor ficou sob os cuidados de Vingnir e Hlora, os guardiões do relâmpago, até se tornar apto a lidar com suas emoções intempestivas. Quando finalmente Thor pode ir morar com os outros deuses em Asgard, ele recebe como morada o palácio Bilskinir, o maior do Valhalla. Este palácio era a morada final para as pessoas humildes após a sua morte. Era uma imensa construção que tinha 540 salas, podia alojar muitas pessoas, assegurando felicidade eterna para elas como uma forma de compensação a tudo o que elas tinham padecido na Terra. Muitas pessoas apreciavam a honestidade de Thor, seu jeito simplório e seu ímpeto de combater aquilo que ameaçava as pessoas. Por este motivo, ele era muito venerado e cultuado, até mais que Odin, o deus dos deuses.

Cada um dos deuses tinha um grande inimigo que o desafiaria na batalha final, conhecida como Ragnarok. O maior desafio na vida de Thor era combater os gigantes e a Grande Serpente do Caos; esta última vivia no oceano que rodeava Midgard, a Terra. Esta serpente é a representação dos instintos e da impulsividade natural do ser humano, como a afetividade e a agressividade. Estas emoções ainda estavam indiferenciadas e caóticas nas emoções de Thor. Por isso, este personagem apresenta dois aspectos marcantes em sua personalidade: obstinação e teimosia, em proporções descomunais. Por causa destes aspectos ainda latentes em Thor, ele foi o único deus que nunca teve permissão de entrar no Asgard passando por Bifrost, a ponte do arco-íris que ligava o domínio dos deuses e a Terra. Ainda que a ponte fosse feita de um fogo flamejante que afastava os gigantes gelados, temia-se que Thor pudesse involuntariamente destruir esta ponte com suas passadas, por causa dos raios e trovões que ele provocava ao caminhar; representação de sua ira e emoções sempre à flor da pele. Assim, devido ao medo que os outros tinham do efeito provocado por seu caminhar, Thor precisava fazer percursos maiores para alcançar a morada dos deuses e a árvore Yggdrasil, onde os deuses se reuniam diariamente.

As características de intempestividade do deus Thor podem ser comparadas aos fenômenos do inconsciente que irrompem na consciência sob a forma de explosões emocionais. Metaforicamente, podemos associar as histórias de Thor com alguns aspectos psíquicos, como a inflação do ego. Para a área da psicologia analítica, este fenômeno representa um estado em que o indivíduo tem um sentimento irreal e desproporcional sobre si mesmo. Isto equivale a um excesso de conteúdos inconscientes que fazem com que o ego perca a sua faculdade de discriminação. Refletir sobre estas características de Thor pode servir para lidarmos melhor com os aspectos presentes em nossa personalidade e mesmo em nossa sociedade. Thor precisa lidar criativamente com sua personalidade intempestiva, e suas aventuras acabam servindo para exprimir e dar sentido à sua intensa energia. Neste sentido, as histórias de Thor se diferenciam das de Hércules, deus da mitologia grega que precisa cumprir doze tarefas tidas como impossíveis para conseguir eliminar a sua tendência à ira. Segundo a mitologia grega, certa vez Hércules foi tomado pela ira, e acabou matando as pessoas que mais amava no mundo: sua esposa e seu filho. Na mitologia Nórdica, Thor não tinha tarefas a cumprir e nunca matou quem amava; a sua intensidade emocional era usada em suas aventuras, protegendo o Asgard e lutando contra os gigantes. Thor era filho de Iord, a deusa Mãe-Terra, o que dava à sua personalidade uma ênfase na corporalidade. Ele era o deus protetor da colheita e também acolhia em seu palácio os humanos que haviam sofrido durante sua vida na terra; isto revela um aspecto doce e acolhedor de Thor. De seu pai, Odin, ele herdou qualidade da determinação, isto o ajudava a vencer as dificuldades, até mesmo seus próprios pontos fracos.

As aventuras de Thor para proteger o Asgard e os seus deuses fazem com que ele tenha que entrar em contacto com aspectos que se opõem à sua personalidade forte, máscula e segura. Por exemplo, em um dos episódios lendários da mitologia nórdica, Thor é convencido a se disfarçar em uma deusa e fingir casar-se com um gigante, seu maior inimigo. Isso ocorrey porque Mjölnir, o martelo de Thor, estava em poder deste gigante que queria, em troca do artefato, casar-se com Freyja, a deusa mais bela do Asgard. Nesta história, Thor relutantemente entra em contato com seu aspecto feminino. A única maneira que os deuses encontraram para evitar a perda do martelo e da deusa Freija foi fazer com que ele se vestisse de mulher. Mesmo vestido como uma mulher e usando um véu que escondia sua barba ruiva, Thor não convenceu ninguém sobre sua feminilidade; até mesmo o gigante com quem ele fingiria casar-se desconfiou das maneiras grosseiras da “deusa”. Thor não conseguiu disfarçar sua fome insaciável e sede descomunal e as chispas que saiam de seus olhos. Apenas o deus Loki, especialista em truques e artimanhas, conseguiu ludibriar o gigante e convencê-lo de que Thor realmente era a deusa Freyja. Loki disse ao gigante desconfiado que Freyja estava muito ansiosa para casar-se com o gigante e por isto há tempos não comia, dormia ou bebia. O gigante acreditou em Loki e graças a isso, o gigante foi eliminado por Thor, Freyja continuou em Asgard e o martelo foi recuperado.

Os mitos são criados como resultado do ímpeto criador dos seres humanos, eles estão intimamente relacionados com a capacidade de produzir idéias imaginativas dos seres humanos. Podemos estudar mais profundamente alguns aspectos do mito de Thor, tendo o cuidado de não reduzir as possibilidades de interpretações. Na mitologia, o Martelo de Thor foi criado pelo anão ferreiro, Sindri. Os contos nórdicos espelham o imaginário daquele povo que acreditava que as cavernas eram locais onde podiam ser encontrados materiais valiosos como ouro e pedras preciosas, dentre outros. Se observarmos este aspecto em particular do mito através do prisma da psicologia, as cavernas em geral representam o inconsciente dos seres humanos: um local escuro, de difícil acesso contendo riquezas em potencial. O martelo Mjölnir é feito de um mineral semelhante a uma pedra, com um aspecto metálico; este mineral torna o martelo extremamente pesado e só Thor consegue manuseá-lo, graças à sua força gigantesca. Ao forjar o Mjölnir, o anão Sindri transformou um material em estado bruto em uma obra de arte e um elemento útil ao deus. Assim, o martelo de Thor pode ser entendido como um símbolo de um modo criativo de se lidar com o material inconsciente da imaginação. Mjölnir pode ser considerado uma representação de aspectos potenciais antes inconscientes, que depois de conscientizados e trabalhados, tornam-se algo de bom valor. O martelo tornou-se a principal marca de Thor, possibilitando que este deus possa cumprir sua meta; proteger o Asgard dos gigantes do frio. As forças do inconsciente, quando utilizadas de forma criativa, contrapõem-se às tendências psíquicas humanas de autodestruição. Histórias míticas, em geral, produzem em quem as ouve ou lê efeitos específicos, particulares para cada pessoa, e difíceis de serem medidos e avaliados. Elas também satisfazem uma necessidade humana de fantasia e de produção de caminhos próprios. O ser humano tem a necessidade de descobrir caminhos que o ajudem a melhor se expressar no mundo de forma singular; a mitologia pode funcionar como um guia para ampliação de tais possibilidades.

O psicólogo Erich Neumann estudou a importância das sagas míticas universais e da função dos deuses na vida das pessoas. Para este pesquisador, a consciência humana se desenvolve por meio de desafios representados pelas histórias vividas pelos heróis míticos das diversas culturas humanas. A consciência humana, individual e coletiva, utiliza-se dos contos de heróis como modelos para vivenciar um percurso emocional interno. Segundo este autor, para que um indivíduo adquira uma identidade pessoal e uma consciência mais abrangente, ele precisa travar lutas internas. Estas batalhas podem ser associadas com aquelas dos contos míticos de heróis. Os contos de fadas e imagens de heróis, nesta ótica, são fundamentais para que se ampliem as possibilidades emocionais e psíquicas dos seres humanos. 

A escritora escocesa Fiona MacLeod afirma que “Os Velhos Deuses não estão mortos – nós, sim”. É provável que esta morte mencionada por ela seja uma referência à cisão entre os mitos e o cotidiano, o corpo e o espírito. Os escritos de Espinosa, filósofo do séc XVII, naturalizam a conexão da mente com o corpo. Para ele, a nossa vida emocional provém de uma estreita cumplicidade entre a mente e corpo físico. Espinosa afirma que é importante haver um esforço mental e corporal para imaginar e agir de modo a fortalecer o que ele chama de “potências corporais”, pois estas se refletem na mente e vive-versa. Para ele, devemos imaginar modos de lutar contra as “imagens adversas” – representadas na mitologia escandinava pelos gigantes gelados – pois estas nos tornam passivos. Espinosa acredita no aperfeiçoamento das emoções para que elas não nos dominem, como no mito de Hércules. Para este filósofo, a nossa essência humana é o esforço com o qual procuramos persistir em nosso próprio ser, unificando mente e corpo. As aventuras de Thor podem ser um fio condutor que fala destes aspectos conectivos. Nosso herói sempre empreende um enorme esforço para lidar com seus aspectos intempestivos. O mito de Thor traz ensinamentos de vitalidade para o mundo contemporâneo, uma cisão naturalizada no sistema social. As aventuras deste deus nos levam a perceber inúmeras formas de expressar a intensidade emocional criativamente. Em um esforço próprio, cada pessoa deve tentar unir corpo e mente. Aprender um modo particular e singular de lidar consigo mesmo e de se expressar no mundo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Odin e os seus Corvos

Odin com seus corvos Huginn e Muninn

A chamada tradição oral é a preservação de histórias, lendas, usos e costumes através da fala. Origina-se do primórdio da história humana, quando ainda não havia a escrita e os materiais que pudessem manter e circular os registros históricos. Na atualidade própria das classes iletradas, a tradição oral tem sido, contudo, muito valorizada pelos eruditos que se dedicam ao seu estudo e compilação (as baladas da Edda Poética, por exemplo), ao considerarem que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo. Supõe-se, por exemplo, que a Ilíada e a Odisseia de Homero foram inicialmente, assim como as Eddas, longos poemas recitados de memória.
 
Joseph Campbell gostava de dizer que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Esse aparente paradoxo pode ser reconciliado se entendermos a tradição oral, mãe da mitologia, como a melhor forma com a qual o espírito humano pôde passar adiante suas experiências no contato com a essência das coisas, com o que há de eterno no mundo. Dessa forma, todas as variantes de um mesmo mito são, no fundo, uma mesma história. E toda mitologia é, no fundo, uma mesma mitologia, uma mitologia do espírito humano.
 
Mas hoje não vivemos mais em tribos e aldeias, e nem todos necessitam decorar tais histórias antigas. Além disso, não são os xamãs nem os anciãos quem nos passam os mitos, mas alguns poucos textos sagrados de outrora, que até hoje inspiram inúmeras variações na mente dos contadores de histórias modernos – a quem conhecemos, principalmente, como artistas. Existem mitos sendo recontados em todos os cantos: nos livros de vampiros adolescentes, nos filmes de Hollywood, nas séries de TV de fantasia, e até mesmo num gibi.
 
O deus que usarei como exemplo de referência neste artigo é hoje um conhecido personagem de histórias em quadrinhos da Marvel. Se você já leu algum gibi, ou viu algum filme recente, de seu filho, certamente o conhece: Odin (ou Wotan, ou Wôdan, variantes hoje menos conhecidas, mas que vieram do original germânico), é o Senhor de Asgard e pai de Thor, o heroico deus do trovão. Você pode achar que não há nada de muito profundo a se falar sobre um velho deus-herói-caçador aposentado que hoje se limita a governar uma cidade mítica, e talvez tivesse razão se considerarmos apenas a forma extremamente diluída deste mito que nos chegou aos dias atuais como um mero personagem de quadrinhos... Mas, não que eu esteja condenando Stan Lee e Jack Kirby, pelo contrário: apesar de terem “diluído” o mito, eles fizeram por ele bem mais do que o cristianismo, que por muitos séculos demonizou o grande deus dos povos nórdicos europeus, a fim de substituí-lo por sua versão bíblica.
 
Mas, o que exatamente eu quero dizer pelo mito de Odin, será que me refiro a uma entidade sobrenatural real? Bem, com todo o respeito à Fraternidade de Odin (uma sociedade secreta neopagã que até os dias atuais celebra os ritos antigos relacionados à Odin e a outros elementos da mitologia nórdica que defendem a teoria de que Odin não é um arquétipo psicológico ou uma metáfora para referência as forças naturais, mas sim uma entidade real). Eles também são “politeístas a fundo”, e ao contrário de outros politeístas que na realidade compreendem aos deuses como emanações de um único Deus Primordial), não é exatamente isso que quero dizer... É óbvio que não existe, na natureza terrestre pelo menos, um homem caolho a cavalgar os céus montado num cavalo de oito patas; mas, por outro lado, a iconografia de Odin é toda ela um imenso conjunto de símbolos, símbolos estes que existem e sempre existirão, ao menos enquanto existirem mentes com vontade de pensar sobre eles.
 
Os símbolos nada mais são do que imensas quantidades de informação reduzidas a uma única imagem ou história fantástica ou ícone que funcionam como uma chave mental para o acesso dessas informações e sensações, desde que a pessoa saiba, em seu pensamento, como usar esta chave de uma forma consciente. Você pode perfeitamente substituir a imagem (o símbolo) de Odin por uma série de palavras (formadas por conjuntos de símbolos – as letras do alfabeto) a formar uma extensa lista: sabedoria, fúria, excitação, guerra, caçada, mente, magia, poesia, escrita rúnica, etc. É claro que, dependendo da interpretação de cada pessoa, e de cada tradição folclórica, essa lista pode variar imensamente, mas não absolutamente. Odin é um conjunto de símbolos, ele serve para que acessemos tais ideias em nosso pensamento, sentimento e intuição, de forma simplificada e cada vez mais potente (o hábito faz o monge).
 
O grande problema do “uso dos mitos” é quando os entendemos como seres literais (e não metáforas), dispostos a barganhar conosco em troca de “favores espirituais”, “boa sorte”, “boa saúde”, etc. Isso é um problema porque, exatamente, a grande vantagem dos mitos é poder ativar a nossa vontade para que nós mesmos busquemos tais objetivos, que nós mesmos nos tornemos heróis a vivenciar a grande aventura da vida, que nós mesmos nos tornemos, enfim, deuses (“sois deuses, farão tudo o que faço e ainda muito mais” – disse o grande rabi da Galiléia).
 
Mas, retornando a Odin: é verdade que o que sabemos hoje sobre o seu mito é extensivamente baseado na Edda Poética, um grandioso conjunto de poemas vindos diretamente dos mitos dos povos nórdicos antigos da Europa, e que foi preservado no Codex Regius (“Livro Real”), um códice islandês que provavelmente foi escrito em cerca de 1270 d.C., mas que só se tornou “conhecido na modernidade” quando um bispo o encontrou na Islândia e o enviou como presente ao então rei da Dinamarca, em 1662. A Edda então permaneceu na Biblioteca Real de Copenhagen até 1971, quando foi escoltada por militares por terra e mar (um acidente aéreo poderia a danificar permanentemente), de volta a capital da Islândia, Reykjavík. Lá ela permanece até hoje, como uma legítima relíquia que guardou praticamente sozinha aos séculos da cultura de um povo, e impediu que seus mitos de diluíssem até não mais existirem.
 
O que os versos da Edda nos trazem, entretanto, são baladas e cânticos bardos de épocas ainda muito mais remotas... Diz-se que Odin já era conhecido desde os primórdios da língua protogermânica, que durou de 500 a.C. há 500 d.C., e que formou a base de diversos idiomas atuais, como o inglês, o escocês, o alemão, o dinamarquês, o norueguês e o islandês, dentre outras. De fato, Odin é tido como o grande responsável por trazer aos homens o conhecimento das runas, a base da escrita germânica antiga, do mundo espiritual (falaremos mais sobre isso na sequência). Ora, como as runas mais antigas encontradas datam dos séculos I e II d.C., podemos dizer que o mito de Odin era tão antigo quanto elas... Mas, talvez seja ainda muito mais antigo do que isso. Porém, como teremos certeza?

Certeza nós jamais teremos, pois a história não é somente uma mera reconstrução moderna dos tempos de outrora: mas uma reconstrução criada primordialmente pelos povos e países vencedores das guerras e dos embates dentre crenças religiosas... O Odin que conhecemos hoje é um Odin sobrevivente aos séculos de domínio romano e cristão, e é mesmo quase um milagre que ele tenha sobrevivido. Apesar das extensivas campanhas de demonização feitas pelos ditos cristãos, o mito mostrou-se persistente: Odin ainda cavalga pelos céus, pelas películas de cinema e pelas histórias em quadrinhos.
 
Dito isso, é preciso deixar claro que a própria natureza do mito é a de se transformar continuamente, preservando-se apenas sua essência, aquilo que está fora do tempo, e sobrevive exatamente por nos tocar a alma, por ser eterno... Portanto, e interpretação que mais conta é a atual; e, além disso: é a nossa interpretação. Porque os mitos que nos são despejados como dogmas pré-estabelecidos por pretensas figuras de autoridade não são muito mais do que propaganda enganosa. O que nos importa, o que sempre importou, é identificar a essência, a verdade guardada em inúmeras metáforas, percebida sabe-se lá por qual ancestral selvagem em meio ao inverno europeu, e que, espantosamente, ainda está aqui, ainda nos toca a alma, ainda é capaz de nos elevar a estados de consciência que nem sabíamos que existiam.
 
O que falarei a seguir, portanto, é da minha interpretação do mito de Odin. Baseada num estudo das inúmeras histórias que ainda se contam dele, é claro; mas, não obstante, minha interpretação. Sinta-se a vontade para questioná-la, interpretá-la, vivenciá-la, pois é isso o que os mitos nos pedem...
 
Um dos problemas em tentar se interpretar um mito tão antigo como Odin nos dias atuais é a questão de, obviamente, os dias atuais pouco ou quase nada terem a ver com os dias em que os nórdicos cantavam poemas sobre seu Deus no inverno europeu. Isso também nos leva a uma outra questão, mais profunda, que é a antropomorfização do Deus: ora, fica óbvio que o Odin-homem, filho de Bor, não pode ser o Deus do qual tudo emanou, visto que ele mesmo é filho de ainda outro deus. Mas, pelo que sabemos, Bor é citado diretamente apenas uma única vez em toda a Edda Poética, e não há registro algum de culto a este deus (em qualquer época), de modo que mesmo o fato de Odin ter um pai pode fazer parte dessa transformação do Deus em um homem divino, um deus antropomorfizado em um avatar.
 
Pelo menos neste aspecto continuamos no mesmo barco dos ancestrais europeus: temos uma dificuldade muito parecida em nos referir a Deus sem “esbarrar” em antropomorfizações do tipo. Mas isto, longe de ser um problema para o entendimento da mitologia, é na verdade um ponto de encontro entre a modernidade e a antiguidade. É claro que boa parte da simbologia que foi atribuída ao mito de Odin ao longo dos séculos teve muito a ver com o estilo de vida e as ideias, os anseios e os medos, do povo nórdico... É exatamente quando retiram Deus de seu aspecto incognoscível (ao menos para a grande maioria de nós) e os “trazem para baixo”, para nossa realidade humana, é que encontram inspiração para relatar sua realidade em inúmeras histórias fantásticas, baladas poéticas, salpicadas por panteões de deuses e um imenso conjunto de seres mitológicos, simbólicos. E, exatamente por tais histórias terem essas camadas superficiais de simples entendimento, tornou-se possível que chegassem, boca através de boca, mente através de mente, até os nossos dias atuais.
 
Isso não significa que não tenham muitos elementos ocultos, eternos, escondidos nas camadas mais profundas de sua narrativa. A questão é: e quem terá a lamparina para iluminar tais locais ocultos e descobrir toda a profundidade do mito? Quem, a não ser você? Quem, a não ser todo aquele que busca compreender a mitologia humana, a nossa história mais profunda, com a mente realmente aberta e arejada?
 
Estas são algumas das histórias mais profundas acerca de Odin... Acendam as lamparinas:
 

O Deus Errante

Talvez a mais antiga forma de representação de Odin seja a do deus errante, a vagar pelo mundo dos homens sem um destino exato, carregando um cajado (ou sua lança usual, mas utilizada como cajado), e vestindo um disfarce de nômade (sem elmos, armaduras, nem nada do tipo). Diz-se também que esta versão do deus tinha características xamânicas, que foram preservadas nas versões posteriores, mas que nesta fase eram mais “aguçadas”... Ora, se formos analisar toda a mitologia, há inúmeros casos de deuses errantes, particularmente entre os africanos, os indígenas das Américas e os xintoístas – o que essa ideia nos conecta, historicamente, é com o período pré-histórico em que fomos caçadores-coletores, e não sabíamos nada de agricultura.

Um deus errante não pode, no entanto, ser o patrono de um panteão de deuses, muito menos o governador de um reino como Asgard. Na época dos caçadores-coletores, não fazia muito sentido imaginar uma hierarquia divina, assim como não fazia muito sentido imaginar uma hierarquia entre as tribos humanas – simplesmente existiam inúmeras tribos, umas amigáveis e outras não, e inúmeros deuses ou espíritos errantes da natureza, uns amigáveis e outros não. Antes da civilização, a espiritualidade era horizontal, não vertical.

Com o surgimento da agricultura, das primeiras civilizações, e da ideia de hierarquia, o mito do deus errante aos poucos foi se transformando no mito do Deus-Pai, o Grande Xamã: não apenas de uma tribo, mas de centenas ou milhares de tribos. Odin era então o deus de todos os povos nórdicos, que agora viviam em vilas e cidades, embora ainda caçassem e guerreassem uns com os outros e, sobretudo, com os povos do sul da Europa.

Talvez por isso, apesar de Senhor de Asgard, Odin nunca tenha deixado de ser também o deus caçador, o deus errante... Você pode achar que o Odin errante jamais exerceu qualquer impacto sobre você, mas isso pode não ser verdade, principalmente se você, como eu, já leu e se maravilhou com os livros do britânico J. R. R. Tolkien – O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Ora, ocorre que Tolkien era um grande fã da Edda Poética e, como tal, introduziu em sua Terra Média inúmeros mitos dela. Um deles era exatamente o mago Gandalf, que é totalmente inspirado pelo aspecto errante de Odin, até mesmo na aparência.
 
 
Sleipnir

Diz-se que Odin era muitas vezes visto cavalgando pelos ares em seu cavalo de oito patas (mas nenhuma asa), chamado Sleipnir. Esta é mais uma parte do mito que está claramente associada ao xamanismo. Um cavalo de oito patas já pode ser associado aos transes xamânicos, quando supõe-se que, em estados alterados de consciência, provocados por rituais específicos ou mesmo pela ingestão de plantas e/ou cogumelos alucinógenos, os xamãs antigos (assim como os modernos) tinham visões de animais se metamorfoseando em outros animais, ou adquirindo membros extras, dentre outras alucinações do tipo.

Porém, além disso, Sleipnir era um cavalo voador, o que se trata de uma clara menção as “viagens” em transes xamânicos, assim como uma conexão do mundo terreno com o mundo espiritual, celeste. Esta conexão é reforçada pelo fato de Sleipnir ser também capaz de levar seu cavaleiro até o submundo (o mundos dos mortos), e o trazer de volta são e salvo.

Histórias bem mais recentes, medievais, contam que nos dias próximos ao solstício de inverno, as crianças nórdicas deixavam suas botas com cenouras, feno e açúcar, próximas as chaminés das casas, para que Sleipnir viesse e as comesse. Odin costumava recompensar tais crianças com pequenos brinquedos e doces, que no outro dia eram encontrados dentro das botas. Ora, nem preciso dizer o que isso nos lembra nos dias atuais, não é mesmo? Odin é realmente conhecido por diversos nomes.

 
Geri e Freki

Odin também era acompanhado por dois lobos ferozes, Geri e Freki. Ambos os nomes significam algo como “guloso”, ou até “vorazmente guloso”. Os lobos de Odin eram conhecidos por comerem bastante, realmente: isto, pois Odin sobrevivia apenas de vinho, e mesmo nas festas em seu salão real, deixava toda a carne ou qualquer outro tipo de alimento sólido para que sues lobos devorassem.

Ironicamente, encontramos uma clara referência ao ascetismo espiritual dentre um mito nórdico. Odin era o Grande Xamã e, como tal, a ele apenas o vinho sagrado era necessário – tudo o que precisava para estabelecer seu poder sobrenatural, que provavelmente tinha muito a ver com as visões experimentadas em transes xamânicos. Essa ideia aparentemente estranha é reforçada pelo fato de outras tantas histórias afirmarem que o vinho de Odin é um poderoso catalisador da criatividade poética, e os poucos bardos que um dia tiveram a grande sorte de provar de seu sabor, compunham a seguir as mais belas e profundas baladas de que se tem notícia. Quem sabe, talvez mesmo os Eddas sejam fruto desta divina bebedeira!
 
 
A Fonte da Sabedoria
 
Ainda abaixo de uma das gigantescas raízes de Yggdrasil, a árvore cósmica a sustentar todos os reinos míticos da mitologia nórdica, se encontra uma nascente d’água muito especial: Mímisbrunnr. É neste pequeno lago que vivia o Mímir, um reconhecido sábio (seu nome significa algo como “o sábio”, ou ainda “aquele que se lembra”). Odin ficou sabendo da existência desta fonte, que se acreditava dar “a sabedoria de todas as eras” aqueles que a bebiam regularmente (daí a sabedoria do próprio Mímir, seu guardião). Ora, como Odin era um deus que buscava a sabedoria, ele a visitava regularmente para beber um pouco de sua água, assim também ficando amigo de seu protetor.

O que ficou mais conhecido desta história, entretanto, foi o fato de Odin ter arrancado um de seus olhos (não se sabe qual ao certo) e o mergulhado no lago, onde jaz até hoje, oculto no lodo, onde talvez só ele e o Mímir saibam localizar. Diz-se que Odin realizou tal sacrifício em troca da sabedoria do Mímir, mas obviamente algo aqui não faz sentido: se Odin já conhecia a localização do poço, se já era amigo do Mímir, qual seria a necessidade de sacrificar um olho em troca de sabedoria (da qual ele já dispunha gratuitamente)?

Este me parece mais um mito cuja interpretação exige que usemos os olhos da alma, e não do corpo. Para mim, está muito clara a metáfora de “se ter um olho no mundo espiritual, e um olho no mundo terreno”. Ora, por mais que Odin pudesse galopar os céus em seu corcel de oito patas, ele aparentemente não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ou pelo menos não podia estar no plano terreno e no plano espiritual ao mesmo tempo. Esta bela história nos aponta, portanto, para um fato bastante conhecido do caminho espiritual, e até mesmo da própria prática da magia ou da mediunidade: abre-se um olho lá, fecha-se um olho cá. Mas, querer fazer ambas as coisas ao mesmo tempo pode nos levar a loucura, a não ser, talvez, que sejamos também da raça dos deuses.
 
 
A Cabeça Perdida e Encontrada

Infelizmente o destino do Mímir não foi dos mais agradáveis. Na apocalíptica guerra entre os vanir e os æsir, o Mímir teve sua cabeça cortada por um guerreiro vanir. Ora, os vanir eram um povo relativamente pacífico e místico, que cultuava deuses da fertilidade e da sabedoria, e também se dizia que muitos eram capazes de ver o futuro. Eles já habitavam o norte europeu, mas foram invadidos pelos æsir (ou “meio-deuses”), um conglomerado de tribos guerreiras e expansionistas, que vinham da Ásia e do sul europeu em busca de novos territórios. Como o Mímir, juntamente com Odin, pertencia aos æsir, foram deles a iniciativa do ataque.

Os vanir eventualmente foram conquistados e tornaram-se um subgrupo dos æsir, até que as eras se passassem e todos fossem confundidos com um só povo: o povo nórdico...

Mas, voltando a grande batalha: Odin, não se dando por rogado, encontrou a cabeça perdida do Mímir após o final da chacina e, com sua magia, manteve seu amigo vivo como uma peculiar (e, provavelmente, assustadora) cabeça falante que ele carrega consigo para onde quer que vá – pois o Mímir ainda é um grande e sábio conselheiro.
 
Esta épica batalha, que poderia ser lamentada como um fato trágico, na realidade é festejada como o alvorecer da civilização – de qualquer civilização, pois todas começaram assim, e todas tem mitos muito próximos –, quando tribos sedentárias e pacíficas, que já dominavam a agricultura, são invadidas e quase dizimadas por tribos nômades guerreiras. Mas, no fim, tudo se ajusta: a cultura das tribos nativas, geralmente mais profunda e espiritual (por se tratar de gente “que tinha tempo de viver, e não apenas caçar e coletar”), é assimilada aos poucos pela cultura invasora, e com o passar dos séculos é como se todas fossem uma só cultura – e, de fato, já o são.

O próprio fato de Odin ainda hoje ser visto como um deus de sabedoria e magia, e não apenas um grande guerreiro, demonstra que talvez, no fim, a cultura dos vanir tenha se sobressaído à cultura dos æsir, e isso talvez indique que ainda podemos ter a esperança de uma volta a este antigo mundo pacífico: onde a fertilidade é mais exaltada do que a ferocidade.
 
Mas, e quanto à cabeça decepada e falante do Mímir, o que diabos isso significa? Olha, não vou dizer que sei o que isso significa, mas este mito me remete pelo menos a duas considerações: a primeira, é que os nórdicos já sabiam valorizar a importância da cabeça em relação ao corpo, o que a neurociência apenas confirmou; a segunda, é que eles tinham algum senso de humor.
 
 
O Deus Enforcado

Como já disse no início, Odin também é reverenciado por ter trazido ao conhecimento dos homens as runas, que nada mais eram do que o primeiro alfabeto do povo nórdico, o que possibilitou a origem da escrita entre eles. O que eu não mencionei é o quão estranha é, a primeira vista, a história que nos conta como Odin obteve tal conhecimento.

Diz-se que ele, desejando adentrar reinos ocultos do mundo espiritual, enforcou-se na própria árvore cósmica, Yggdrasil, por nove dias e nove noites (nove também são os reinos míticos da mitologia nórdica em geral), enquanto era estocado por sua própria lança (não está claro quem o “auxiliava” neste ritual, talvez fosse ainda o Mímir quando tinha o corpo inteiro). Ao final de todo esse sacrifício, Odin acordou (se é que ele morreu no processo, entende-se que após os nove dias ele ressuscitou) e trouxe consigo a memória do conhecimento da escrita rúnica.

Ora, sabe-se que todos os deuses inventores da escrita foram grandes, ou ainda são: pois foi exatamente a escrita que possibilitou que o conhecimento sobre eles fosse preservado de forma mais exata (o que não necessariamente é algo sempre bom). No Egito antigo sabe-se que tal tarefa coube ao deus Thoth. Posteriormente, na Grécia, existiu também Hermes, que partilhava de tantas características em conjunto com Thoth, que muitas vezes faziam referência a ambos os deuses sob o título de Toth-Hermes. Entre os romanos, Hermes foi conhecido como o deus Mercúrio e, de fato, muitos historiadores acreditam que os romanos também confundiam Mercúrio com o próprio Odin, quando se referiam aos povos nórdicos – assim, o ciclo se fecha.

Mas, o que me interessa aqui é que todos os deuses inventores da escrita também eram reconhecidos como grandes intermediários entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses, ou seja: eram médiuns, ou xamãs.

E é exatamente daí que parte a compreensão do que diabos Odin foi tentar fazer ao se enforcar numa árvore cósmica: ora, é claro que se trata de ainda mais uma metáfora. A árvore Yggdrasil sustenta todo o Cosmos e, dessa forma, o ato de “enforcar-se” nela nada mais é do que o ato de “perder a consciência deste mundo, e viajar com ela alhures”. Além desta referência mais clara ao xamanismo (ou a viagem astral) há ainda a questão das “estocadas de lança”: uma imagem muito comum na arte das cavernas, a arte rupestre, de nossa pré-história longínqua, e que também está intimamente relacionada às práticas xamãnicas.
 
O ato simbólico de se cortar, espetar, estocar com lanças, ou até mesmo destroçar o próprio corpo, significa, para o xamã, o abandono total do apego ao corpo, para que ele possa se elevar mais facilmente, e mais profundamente, aos reinos etéreos de sua própria alma, ou da Alma do Mundo, ou de Yggdrasil. Estes sacrifícios foram necessários para que os xamãs, os grandes heróis míticos de outrora, pudessem nos trazer conhecimentos ocultos, que podiam variar desde “onde caçar amanhã”, a “quais plantas e ervas coletar para fabricar este ou aquele remédio”, a até mesmo a própria inspiração divina para algo totalmente novo, como a escrita rúnica.


Huginn e Muninn
 
Bran estava caindo mais depressa do que nunca. As névoas cinzentas uivavam em seu redor enquanto mergulhava para a terra, embaixo. “O que você está me fazendo?” – [Bran] perguntou ao corvo, choroso. Estou lhe ensinando a voar.
“Não posso voar!”. Está voando agora mesmo. “Estou caindo!”. Todos os voos começam com uma queda, disse o corvo. Olhe para baixo. “Tenho medo...” OLHE PARA BAIXO!
Bran olhou para baixo e sentiu as entranhas se transformarem em água. O chão corria agora em sua direção. O mundo inteiro espalhava-se por baixo dele, uma tapeçaria de brancos, marrons e verdes. Via tudo com tanta clareza que, por um momento, se esqueceu de ter medo. Conseguia ver todo o reino e toda a gente que nele havia.
[...] Agora você sabe, sussurrou o corvo ao pousar em seu ombro. Agora você sabe por que deve viver.


(Trechos das páginas 120 e 121 de A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Publicado no Brasil pela Editora Leya).

Dentre as inúmeras e intrincadas histórias contadas por George R. R. Martin em seu épico As Crônicas de Gelo e Fogo, a aventura de Bran, o menino aleijado que, não obstante, parece destinado a se tornar um grande xamã, está certamente entre as de maior importância para a trama geral. Ora, a imagem da própria família de Bran, os Stark de Winterfell, já nos remete a elementos nórdicos, mas será que Martin estudou apenas as descrições de experiências xamãnicas, ou ainda neste caso podemos falar em alguma influência do mito de Odin?
 
Ora, como eu já havia dito, Odin é também um deus de muitos nomes, e muitas facetas. Boa parte das mais de 200 denominações a Odin estão ligadas, pela raiz (no nórdico arcaico), às palavras vada e od, e, no antigo alto alemão, a Watan e Wuot, que significavam a princípio razão, memória ou sabedoria. Há ainda a palavra Óðr (também do nórdico arcaico) que está mais diretamente associada à deusa Freyja (uma deusa dos vanir, que posteriormente foi associada à Odin como sua esposa), mas que também deu origem ao próprio nome “Odin”, e que poderia significar: mente, alma, espírito, além de poesia e inspiração artística.
 
O nome de Odin que mais nos interessa, no entanto, para esta associação com o corvo de três olhos dos livros de Martin, é o que deriva do nórdico arcaico Hrafnáss, ou do germânico latinizado Hrafnagud, ou seja: The Raven God, O Deus Corvo. Sabemos que Odin está intimamente ligado aos corvos, tanto que possuí dois corvos muitos especiais (dos quais falarei a seguir); além disso, sabemos que um olho em meio à testa, entre nossos dois outros olhos, significa o olho da mente, o olho da alma: o sentido pelo qual o xamã percebe o mundo espiritual... Ora, o primeiro ato de iniciação de Bran, nos livros de Martin, é exatamente ser bicado pelo corvo bem no meio dos olhos, e na altura da testa. Logo após o garoto acorda e acha que tudo “não passou de um sonho estranho”, mas no decorrer dos livros sabemos que não foi bem assim, não é mesmo?
 
Por causa de seu voo alto, o corvo foi, muitas vezes, visto como um mensageiro dos deuses. Inúmeras histórias, de diferentes partes do mundo, falam-nos de como um corvo orientou humanos em suas jornadas. Por exemplo: segundo uma tradição, foram corvos que orientaram os beócios rumo ao lugar em que deveriam fundar uma nova cidade – a Beócia. Teriam sido eles que, também, guiaram Alexandre o Grande, até o templo de Júpiter Amon, no oásis de Siwa, no Egito (e que, lá, predisseram sua morte). O imperador japonês Jimmu, teria marchado para a guerra, no século VII, guiado por um corvo dourado. Um corvo era o mensageiro do Rei Marres, do Egito... E as histórias assim se seguem.

Mas é exatamente na mitologia nórdica que o corvo está ainda mais diretamente associado à magia. Diz-se que o voo do corvo simboliza a viagem espiritual, através do Grande Mistério, onde ela se torna igualmente desejada e perigosa, pois pode tanto trazer a iluminação quanto a loucura, dependendo do cuidado com que é realizada. Obviamente isso tudo tem a ver, claramente, com o xamanismo.

Odin possui então esses dois corvos, Huginn e Muninn, cujos nomes significam, no nórdico arcaico: pensamento (Huginn) e memória (Muninn, que também pode significar mente). Diz-se que, todos os dias, enquanto Odin cuida de seus afazeres como governante de Asgard, seus corvos sobrevoam todo o mundo e depois retornam, na calada da noite, para se empoleirar em seu ombro e lhe cochichar tudo o que virem e ouviram. Dessa forma, o Granda Xamã conseguia manter-se bem informado de todos os eventos, e todos os segredos do mundo, enquanto governava seu grande reino mítico.
 
Mas, o que é mais extraordinário nesta história, e o que a liga ainda mais profundamente ao xamanismo antigo, é o medo que Odin tinha de que seus corvos não retornassem de seus voos diários... Há um trecho da Edda Poética que fala exatamente dessa tal característica tão humana do deus nórdico:
 
Huginn e Muninn voam a cada dia
Sobre os grandes espaços de Midgard
Eu temo por Huginn, que ele não consiga voltar,
Mas fico ainda mais ansioso pelo retorno de Muninn
 
Parece-me que esse é o mesmo medo de todo o xamã iniciante, de todo aquele que mergulha no Grande Mistério da própria alma, e teme se perder de seu corvo guia, e nunca mais encontrar o caminho de volta. Trata-se de uma belíssima metáfora não somente para a própria arte da magia, como para todo o risco que ela envolve... Ainda assim, Odin é o Grande Xamã, não mais habita nosso mundo (Midgard), mas o mundo espiritual (Asgard), e mesmo assim, mesmo do alto de toda sua sabedoria, ele ainda temia perder seus corvos. Mesmo um deus teme perder sua memória, e seu pensamento – sem estes, ele reduz-se a nada, ou quase nada. Um deus louco não é muito mais do que um xamã louco.
 
Através desta nossa curta, porém espiritualmente profunda, viagem pelo mito de apenas um único deus, quantos ecos ocultos de nossa história não parecem ter vido a tona...
 
Não tenho dúvidas de que, assim como Odin, todo grande deus, todo grande mito, um dia foi homem: um grande e feroz guerreiro, um exímio caçador cuja lança jamais errava o alvo, um xamã ancião que intercedia no mundo espiritual para proteger e guiar sua tribo ou, quem sabe, apenas mais um que contemplou as estrelas, e tornou-se um artista, um poeta. Nossos mitos mais grandiosos provavelmente são as histórias das vidas de grandes homens e mulheres, mescladas com nosso temor e fascinação pelas forças da natureza, e com os aspectos psicológicos – nossas mais belas e profundas reflexões acerca do porque, afinal, estamos aqui neste mundo.
 
Eis porque nós mesmos também somos da raça dos deuses, e porque todos, deuses e homens, nada mais são do que emanações da Alma do Mundo, do Grande Mistério, do Oceano que somente alguns de nós se arriscaram até hoje em mergulhar, e de lá trouxeram as mais belas e aterrorizantes interpretações daquilo de oculto que sentiram – mas que, claro, seria impossível traduzir em palavras, em linguagem cognoscível.
 
Interessante como iniciamos este relato de Odin através das histórias em quadrinhos, onde o mito está mais diluído, mas é exatamente um escritor de quadrinhos que nos traz, atualmente, uma das definições mais completas da grande viagem dos corvos: “Magia é arte, a arte. E essa arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma, é literalmente magia. A arte é como a magia, a ciência de manipular símbolos para operar mudanças de consciência” – define Alan Moore na genial obra The Mindscape of Alan Moore.
 
Toda a arte nasceu da mitologia. A pintura e a gravura nasceram na arte rupestre, pré-histórica, xamãnica. A música também se desenvolveu conjuntamente com os rituais religiosos ancestrais. Mesmo o teatro surgiu na Grécia antiga, quando os cultos ao deus Dionísio acabaram evoluindo para peças teatrais onde os atores, tal qual aos xamãs, vivenciavam aos mitos. Já a poesia, é pura magia posta em palavras... É exatamente por isso que a magia é a arte, a primeira arte, pois foi através dela que nossos ancestrais puderam transportar suas ideias e pensamentos, seus símbolos, para este nosso mundo de carne e osso. E o que é a mitologia senão o arcabouço simbólico de toda a nossa arte?
 
Sob um ponto de vista, você poderá dizer: “poxa, mas a magia é apenas isso?”; ou poderá dizer, sob outro ponto de vista: “puxa, mas então a magia é tudo isso!”. O seu ponto de vista dependerá tão somente da altura na qual seus corvos conseguem voar.